CRÍTICA | Tau

by João Rafael

Estreando na Netflix no último dia 29 de junho, Tau é o novo lançamento original da plataforma, que se junta a outros cada vez mais frequentes em número (mas nem tanto em qualidade). Com a possibilidade de desenvolver projetos com valores de produção mais flexíveis – já que seu retorno depende do número de assinantes e não sofre tanto o gap dos orçamentos extremos (ou muito altos, ou muito baixos) dos meios tradicionais de Hollywood – o serviço de streaming mais bem-sucedido da atualidade tem se tornado um reduto de filmes de baixo orçamento, nos quais cineastas estreantes podem investir sua criatividade nos moldes de cinema de gênero.

Escolhendo trabalhar no espectro da ficção científica (há vários exemplares do gênero no catálogo), o estreante na direção Federico D’Alessandro traz uma história cada vez mais comum sobre a capacidade de autoconsciência de uma inteligência artificial, através de uma narrativa basicamente construída por meio do já subgênero “cativeiro”. É um tema repleto de excelentes obras originais e adaptações, além de conter inerentemente uma riquíssima fonte para desenvolver questionamentos diversos sobre praticamente tudo que pode ser afetado por ele. Por isso é uma pena que, embora acredite estar discutindo diversas ideias relacionadas à senciência das máquinas e as questões éticas dela decorrentes de maneira intrigante, a obra vai na contramão de tantas outras similares e acaba soando como uma derivação amadora e desajeitada de alguém que parece ter acabado de descobrir que existe o tema “inteligência artificial”.

Na trama, Julia (Maika Monroe) é uma jovem que é sequestrada e feita prisioneira por Alex (Ed Skrein), um cientista que usa seres humanos como cobaias a fim de aprimorar o funcionamento de seu projeto, Tau (voz de Gary Oldman), um sistema de inteligência artificial responsável por controlar a casa e as tarefas do dia a dia de Alex.

Se há algo que parecia promissor durante os minutos iniciais é que o filme dava sinais de uma segurança, tanto na técnica como na narrativa. Uma montagem eficiente com um visual no velho estilo jogo de neons – característica de uma quase obrigatoriedade na cartilha dos iniciantes no gênero – e nos silêncios para construir tensão e privilegiar o peso das imagens. De um ponto de vista de apresentação de personagem, essa eficiência vem na forma como aprendemos algumas informações relevantes sobre a protagonista usando muito pouco. Ela é esperta, ágil e almeja um futuro diferente de sua vida atual quando olha por alguns segundos um folheto de uma escola de música colado em sua geladeira. No canto do quadro, vemos seu captor na espreita e assim estamos prontos para sentir empatia por ela. Agora só falta desenvolver todo o resto.

O problema é que temos como obstáculo o péssimo roteiro de Noga Landau. Geralmente, é possível notar logo cedo quando um texto vai apresentar um misto de insegurança com pressa quando a necessidade do impacto de suas revelações se sobrepõe à organicidade de sua estrutura. Ora, vejamos, por exemplo: sem qualquer tipo de interação com Alex ou sequer tempo para refletir, a protagonista afirma logo que “ninguém virá nos salvar. Não somos do tipo que a polícia procura, e ele sabe disso ”, uma informação que só faria sentido se fosse deslocada para, no mínimo, o final do 2º ato. Isso parece ser apenas um detalhe diante de toda a projeção, mas denuncia claramente a tendência atropelada do resto da trama.

Tau pretende ser uma boa ficção científica, mas não tem nenhuma maturidade para trabalhar suas ideias.

Mas vamos logo no cerne da questão: o objetivo aqui é criar uma relação entre a protagonista e o sistema para, a partir dela, abordar o plot bastante comum do gênero sobre a relação entre o homem e máquina. Para isso, estabelece que os dois compartilham de características semelhantes, uma tentativa de inserir um elemento humano à máquina e justificar seus questionamentos quanto à sua própria existência. Só que isso acontece basicamente por um gosto em comum pela música e por flashbacks mal construídos através de rápidas inserções sobre o passado de Julia, cuja utilização é mal fundamentada e sempre explicada por exposições desnecessárias, além de ser esquecida posteriormente, somente para ser utilizada em uma cartada – na falta de um termo melhor – tola. Além disso, essa relação entre os personagens depende do desenvolvimento de Tau e da maneira como acreditamos em sua capacidade de se questionar.

Nesse caso, Hal9000 (2001, Uma Odisseia no Espaço) ficaria extremamente decepcionado com a estupidez de seu semelhante, já que praticamente tudo que envolve seu arco acontece de maneira absolutamente artificial (apesar da possibilidade de um trocadilho, se refere à artificialidade do roteiro mesmo). Exibindo um controle intenso e uma obediência rígida ao seu mestre, ele imediatamente passa a se questionar depois de longas sessões existenciais com Julia… não, espere; na verdade, isso é o que acontece depois de uma cena em que a personagem insiste durante dez segundos para que Tau solte um “eu sou um ser humano? ”, em um momento que se torna risível ao invés de revelador e chocante. E isso não acontece só aqui, mas continua durante todo o filme, com o pobre sistema sendo manipulado pela protagonista e castigado por Alex –  aliás, o conceito de um sistema computacional sendo literalmente torturado só faz sentido para ser usado como um elemento cafona de identificação com o público.

O que traz, inevitavelmente, o mesmo grande problema com Alex, que flutua da perspicácia absoluta – mesmo que através de diálogos expositivos – a atitudes completamente inverossímeis, o que explica o porquê da inteligência artificial que criou não ser nada inteligente. Sendo assim, exibe aquela velha e clichê rigidez com os pequenos hábitos de sua rotina calculada e asséptica, mas não se importa em deixar sua cativa solta a poucos metros de onde participa de uma videoconferência, quando seus “métodos de pesquisa” deveriam ser supostamente secretos; ou deixa sua residência todos os dias sem ter a menor preocupação com que o ocorreu enquanto estava fora (não há câmeras ou sequer um sistema simples de vigilância?). Tau é um sistema superdesenvolvido e altamente capacitado – como diz com orgulho o próprio Alex – e ainda assim é facilmente desvirtuado e não possui nenhum artifício de segurança mínimo para que uma simples conversa mole o fizesse se transformar?

Bom, mas ao menos no aspecto visual o filme tem suas qualidades, certo? Não muito. Assim como acontece com o roteiro, no início a concepção na cinematografia do ambiente, fotografado por Larry Smith (Até Deus Perdoa) até sugere uma lógica que, apesar de um pouco óbvia, é funcional – como acontece, por exemplo, com o jogo de neon no apartamento de Julia, que, alternado entre o frio e o quente, sugere o estado dúbio de sua interação com Tau reproduzido no ambiente da casa de Alex. Mas isso pouco ajuda quando os elementos tecnológicos e sua forma de interação são tão dispersos e genéricos. O que vemos, basicamente, é uma mistura de luzes, flashes e modelos em 3D de coisas aleatórias feitas claramente para dar a impressão de uma alta tecnologia, mas que pouco conseguem em meio a um ambiente tão estilizado (num mau sentido, já que aqui implica salas e quartos construídos com blocos todos iguais e sujeitos unicamente à iluminação ambiente) e que não apresenta variações que o deixem ao menos com cara de um ambiente de trabalho. Uma decepção vinda de Federico D’Alessandro, que, apesar de estreante na direção, tem nos créditos inúmeros trabalhos nas cadeiras de arte da maioria dos filmes do Universo Cinematográfico da Marvel, além de outros.

Se ao menos pudéssemos ignorar todos os problemas e tentar retirar uma boa ideia de Tau, daria para salvar alguma coisa, mas nem como um filme de sequestro ele se sai bem. Há poucas e nada boas tentativas de criar suspense, com direto a jumpscares dignos dos piores filmes de terror. Quanto aos personagens, pouco D’Alessandro e Landau conseguem fazer e menos os intérpretes tem a tentar – com a exceção, talvez, da talentosa Maika Monroe (dos ótimos Corrente do Mal e O Hóspede), que praticamente dá alguma vida a Julia pelo seu carisma natural. Já Ed Skrein passa em branco apenas servindo como um dispositivo de exposição e, ocasionalmente, um vilão ruim.

E nosso talentosíssimo Gary Oldman consegue mostrar o porquê de ser quem é apenas pelo fato de ter demorado a perceber que era ele dando vida ao problemático Tau, mesmo apenas respondendo aos desígnios maniqueísta do texto de Landau, o que prejudica imensamente o desenvolvimento da temática da obra. É como dito anteriormente: se quando vemos o clássico de Kubrick, um Ex-Machina ou a própria série Westworld, saímos com questionamentos que perduram tempos depois, com Tau temos a impressão de que alguém que jamais viu sequer uma dessas obras decidiu explorar as questões mais básicas da maneira mais infantil possível. E, mesmo que se argumente que o propósito aqui é mais servir como um passatempo de gênero, não dá para ignorar que premissas grandes são estabelecidas para simplesmente se darem ao luxo de perderem a importância depois.

Mais uma vez, a Netflix decepciona com um longa original, algo que vem acontecendo com frequência (ao menos com filmes), o que mantém a relevância do questionamento que se faz sobre a qualidade vs quantidade da empresa. Será que vale mesmo a pena ter tanta opção e, ao mesmo tempo, tão pouco?

 


 

 

Data de estreia: 29 de junho
Título Original: Tau
Gênero: Ficção Científica, Suspense
Duração: 1h37
Classificação: 16 anos
País: Estados Unidos
Direção: Federico D’Alessandro
Roteiro: Noga Landau
Edição: Scott Chestnut
Cinematografia: Larry Smith
Trilha Sonora: Bear McCready
Elenco: Maika Monroe, Ed Skrein, Gary Oldman

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