CRÍTICA | The Post: A Guerra Secreta

by Thiago de Mello

Há diferentes tipos de virtudes em The Post: A Guerra Secreta. A proposta do filme não se restringe a narrar os bastidores de uma das grandes publicações jornalísticas dos Estados Unidos. O filme vai além e consegue, também, elevar a figura feminina e enaltecer a responsabilidade jornalística ao mesmo tempo em que funciona como crítica ao infame presidente Donald Trump. E, ainda, dá nova luz à carreira de Steven Spielberg. Mesmo que com alguns equívocos.

A força motriz de The Post reside no contexto da época.

Vietnã, 1966. Uma tropa estadunidense prepara-se para entrar numa das densas matas vietnamitas. Há uma espécie de “preocupação despreocupada” no ar. Principalmente graças à trilha sonora embalada pelo rock Green River do Creedence Clearwater Revival. A música elabora algo próximo de uma ironia dramática onde o timbre ressonante das vozes e guitarras dos irmãos Fogerty emulam um familiar clima dos filmes de guerra dos anos 70. A proposta da música, a meu ver, é fazer um anuncio ao espectador ao estabelecer um contraponto entre a imagem romantizada da guerra e as consequências reais.

Após partirem, os soldados são alvejados por tiros vindos das penumbras da selva. Não há mais rock and roll para embalar a imagem posterior dos cadáveres. A atmosfera heróica e revolucionária da guerra é suprimida pelas mortes. Enquanto isso, os líderes americanos, em segurança, preocupam-se apenas em encontrar qualquer justificativa com um mínimo de plausibilidade para manter a guerra que viria (e já estava sendo) a ser um fracasso e, principalmente, uma mancha no orgulho do Tio Sam.

The Post

‘The Post: A Guerra Secreta’ acerta em muita coisa, mas peca em momentos determinantes

É a partir desse breve preâmbulo que The Post: A Guerra Secreta inicia uma paciente e dedicada construção narrativa para dar significado e corpo ao embate entre a liberdade de imprensa e a censura – ou, em outras palavras, a liberdade versus o Estado. Sob essa perspectiva, The Post realiza um trabalho admirável.

A velha e conhecida competência de Steven Spielberg dá o ar da graça ao trabalhar a importância da liberdade de expressão de forma minuciosa, principalmente no primeiro arco. O trâmite jurídico utilizado pelo Estado para censurar o The New York Times é explicado detalhadamente através de sequências alongadas e de poucos cortes. Esse mecanismo determina o ritmo do filme e coloca o espectador numa distância razoavelmente próxima de cada personagem, como um observador privilegiado. A tônica austera cria um senso de importância e urgência, porém, ainda assim, as longas cenas e ritmo cadenciado não possuem, até o fim do primeiro arco, vigor suficiente para mascarar os minutos. Fica a impressão de que o filme ainda não começou. Não se trata, porém, de um erro, mas uma decisão consciente que prioriza a boa elaboração do contexto e tom do filme.

No segundo arco, quando o Estado (leia-se Richard Nixon) consegue o que quer, a dinâmica de The Post ganha novo ritmo. Spielberg trabalha com angulações e aproximação de câmera, movimentações de eixo e uma montagem cirúrgica para dar peso e urgência às necessidade do momento. Bom exemplo disso é a sequência da conferência de telefonemas. Em diferentes lugares, alguns personagens fazem acalorado debate sobre qual o próximo passo a ser tomado. Com cortes e intercalações precisas, Spielberg e o diretor de fotografia Janusz Kaminski (parceiro de longa data de Spielberg, responsável por filmes como A Lista de Schindler e O Resgate do Soldado Ryan) criam um momento vigoroso. Os zoom in e zoom out e os plongées e contra-plongées nos personagens dão dinâmica objetiva e subjetiva, resultando numa sequência intensa.

Alinhados às competências técnicas, os atores e as atrizes como Bob Odenkirk, Bradley Whitford, Bruce Greenwood, Alison Brie, Sarah Paulson e Michael Stuhlbarg dão um suporte ideal para o desenvolvimento da narrativa graças às qualidades próprias e ao entendimento pleno da tônica do filme. Não há arroubos interpretação. E o mesmo pode ser dito sobre o elenco principal: Tom Hanks e Meryl Streep.

Acima do brilhantismo, a dupla de atores trabalha com o desenvolvimento da credibilidade. Streep e Hanks elaboram personagens absolutamente humanos, mesmo diante uma situação tão grandiosa. A química da dupla é orgânica e funciona sempre, desde o mais trivial debate de trabalho, até a mais arriscada decisão jurídica. Um trabalho perfeitamente funcional às necessidades da obra.

The Post busca retratar o momento não apenas como situação histórica, mas como um alerta. Spielberg e os roteiristas Liz Hannah e Josh Singer sabem que a história é cílcica. Dessa forma, nada mais contundente do que argumentar acerca da necessidade da liberdade de imprensa e os perigos da censura do Estado. Com a eleição de Trump, um filme como The Post era apenas questão de tempo. Quanto à mensagem, Spielberg acerta na necessidade, mas erra no tom.

Se a velha e conhecida competência de Spielberg deu as caras, a – não tão – nova veia melodramática também aparece, principalmente no terceiro ato. A atmosfera sóbria construída pacientemente é suprimida por um melodrama diabético que busca enaltecer, da maneira mais contraproducente, o orgulho americano. Elementos como a fotografia e a música, por exemplo, abandonam as sutilizas e criam momentos cujo exagero ufanista é a tônica. Discursos com closes em olhos lacrimosos, música redundantemente triunfante, exaltação da Constituição, olhares para o horizonte, etc. Uma avalanche de pieguices incompatíveis com todos os minutos antecedentes que acaba se distanciando do espectador que não seja um exagerado patriota estadunidense. Ao tentar enaltecer o orgulho americano e criticar o que prega o presidente Trump (em seus constantes ataques à imprensa com proibições à  Casa Branca, situação também presente no filme, e a constante citação e classificação de fake news), Spielberg carrega a mão e diminui a pungência da obra ao elaborar um final demasiadamente romantizado.

Isso não acontece apenas no quanto ao discurso jornalístico, mas também atinge a personagem de Meryl Streep: Kay Graham. Spielberg não limita The Post à crítica sobre a comunicação. Além disso, numa válida leitura sobre o contexto atual, aproveita para dar foco à figura feminina. Diante um momento de (possível, desejada e tardia) revolução, a personagem possui um bom arco próprio de crescimento. Sempre cercada e menosprezada pela opinião masculina, o crescimento da auto-estima de Key Graham é uma das virtudes do filme. É desnecessário afirmar (mas já afirmando) que Streep dá substância à personagem. Porém, mesmo com um crescimento orgânico e bem desenvolvido, Spielberg, no melodramático terceiro ato, não se contém e repete de maneira incômoda a mensagem feminista construída até o momento. O exagero pauta o final do filme que, mesmo com tantas virtudes, apresenta-se incompatível com o resto.

The Post: A Guerra Secreta atinge bons méritos, apesar dos equívocos. Seu valor, entretanto, está mais na necessidade do discurso do que na forma já que o discurso final parece mirar apenas nos compatriotas do diretor.

The Post: A Guerra Secreta estreia em 25 de janeiro.

 


Título original: The Post
Gênero: Drama
Duração: 1h56
Classificação: 12 anos
País: EUA
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: Liz Hannah, Josh Singer
Edição: Sarah Broshar, Michael Kahn
Cinematografia: Janusz Kaminski
Trilha Sonora: John Williams
Elenco:
 Meryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts, Bradley Whitford, Bruce Greenwood, Matthew Rhys, Alison Brie, David Cross, Michael Stuhlbarg

 

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