CRÍTICA | Três anúncios para um crime

by Thiago de Mello

 

Três anúncios para um crime trabalha com cuidado a elaboração de personagens para justificar suas respectivas ações e motivações. É através desse esmero que o filme estabelece os alicerces que comentarão acerca de situações inteiramente humanas como rancor, ódio, vingança, justiça e até amor, dentre outras. São discussões diferentes entre si, mas todas dentro do mesmo contexto humano, feitas sem moralismo ou qualquer forma de romantização através de realismo característico de Martin McDonagh. É dessa maneira que o seu terceiro longa-metragem exemplifica a máxima: a arte é o reflexo de seu tempo.

Tal como Craig Gillespie fez em Eu, Tonya, McDonagh exemplifica os Estados Unidos – o verdadeiro Estado Unidos, aquele que orgulhosamente ostenta bandeiras nas varandas, que agrega os símbolos da tradição do País – numa pequena e pacata cidade interiorana. No caso, conforme o título original adianta: Ebbing, Missouri. E no prólogo do filme, as breves sequências dos outdoors decadentes envoltos por uma névoa densa, fria e triste já anunciam a qualidade do local e o pesar que o cerca.

A filha de Mildred (Frances McDormand) foi estuprada e assassinada. Meses após sua morte, ainda não há suspeitos. A mãe ao passar por uma estrada esquecida olha no retrovisor e nota os três outdoors. Neles, ela coloca mensagens direcionadas ao delegado da cidade, Willoughby (Woody Harrelson), perguntando por que ninguém ainda foi preso. As polêmicas mensagens ganham atenção da mídia local e em pouco tempo a cidade reage às placas.

Na foto, a personalidade de Mildred é representada pela roupa. Fria por fora (azul) e intensa por dentro (vermelho)

Três anúncios para um crime elabora uma trama que reflete o conturbado momentos dos EUA (e de boa parte do mundo) através de diferentes elementos caracterizados pelos personagens principais e coadjuvantes. Cada personagem é um reflexo social. São metáforas ou estereótipos que possuem contexto e significância. Cada um deles é desenvolvido apenas para ser desconstruído ao longo do filme, expondo a complexidade que compõe o caráter humano.  Para isso, o filme foca o desenvolvimento em três personagens: Mildred, Willoughby e Dixon (Sam Rockwell).

Com a protagonista, Mildred, McDonagh realiza a mais trabalhada desconstrução de personagem ancorado numa forma da aplicabilidade do efeito kuleshov (que diz que a justaposição de planos cria uma nova significação). Ao sermos apresentados à personagem, vemos primeiro a mulher (eu ia usar “o indivíduo” no lugar de “mulher”. Porém, para a desconstrução, o gênero conta) por bons minutos. Tempos depois descobrimos o passado trágico. Com a justaposição desses elementos, cria-se uma imagem de como a Mildred é e como deveria portar-se diante tal cenário. Espera-se dela reações que a demonstrem fragilizada, vulnerável, chorosa, inocente, correta, carente, passiva, etc.

Ao poucos, nota-se que Mildred não segue àquilo que imaginávamos. Há mais do que dor na personagem. Há mais do que convenções de gênero ou idiossincrasias narrativas superficiais. As reações – e motivações por trás delas – de Mildred são extremas, doa quem doer (e dói em muita gente). Ela personifica as vítimas de um sistema e/ou sociedade cruel. O indivíduo perseguido que é coagido por uma sociedade pertinente à dor alheia por exigir justiça. Mildred reflete o marginalizado, a vítima de violência doméstica, o preconceito. Ainda assim, não se trata de uma imagem beata, pois ela mesma demonstra uma característica bem humana: as falhas morais e de caráter. Essa característica não cria apenas uma boa personagem, tanto na narrativa quanto na metáfora, mas soma à pertinência da ótima conclusão.

O mesmo vale para Willoughby (uma representação do estado, ciente e permissivo quanto aos seus defeitos e preconceitos, e daqueles sob a sua responsabilidade, guiado pelo “bem maior”) e Dixon (a força policial, dotado de preconceitos, explosiva, inconsequente). As relações entre eles, além de outros personagens periféricos, trabalham situações sociais comuns para criar circunstâncias quem refletem a polarização do País. Isso tudo sem soar panfletário e sem limitar as complexidades pessoais e sociais ao maniqueísmo do bem contra o mal. Dessa forma, a obra consegue ser grandiosa tanto no filme quanto no valor.

Mas não haveria tamanha grandeza caso as atuações não entendessem a profundidade dos seus respectivos personagens. Principalmente Frances McDormand. Com uma atuação arrebatadora, a atriz premia o espectador com momentos carregados de emoção oriundos de pequenos detalhes de sua performace. A dor, a culpa e a esperança que carrega são perfeitamente observadas pelo público desde situações provincianas até momentos de forte valor dramático, passando, ainda, por um humor tão ácido quanto pontual. Emocionante e firme, McDormand diz muito com muito pouco e justifica sua indicação ao 90º Oscar de Melhor Atriz. A presença da atriz ainda é amplificada graça à bela e vibrante trilha sonora, tema de sua personagem, composta por Carter Burwell, num de seus melhores trabalhos desde Na Mira do Chefe (também de Martin McDonagh, de 2008).

Enquanto isso, Harrelson e Rockwell estabelecem personagens críveis e humanizados, mesmo com atuações familiares. Embora carreguem alguns maneirismos, ambos os atores conseguem, no momento necessário, cativar. Seus desenvolvimentos, assim como a narrativa, são lineares e pacientes, cientes de seus passos e destino final.

Através da direção pontual de McDonagh, os personagens são apresentados, construídos e desconstruídos até os últimos momentos. No fim, um diálogo simples que não busca responder, mas perguntar ao público: e agora? Com tudo isso, com a quebra de preconceitos, com a remoção da linha que divide o certo e o errado, o que fazer? McDonagh faz uma indagação pertinente. Numa conjuntura social onde crimes variados acontecem, as pessoas (tão boas quanto ruins) precisam irão de alguma forma. Os fins justificam os meios? Não há resposta fácil, se é que há. Três anúncios para um crime é a arte exemplificando a complexidade desses momentos polarizado, amargurado e sedento por qualquer forma de justiça, seja ela qual for.

 


 

Data de estreia: 15 de fevereiro de 2018
Título original:
Three Billboards Outside Ebbing, Missouri
Gênero: Crime, Drama
Duração: 1h55
Classificação: 16 anos
País: EUA, Reino Unido
Direção: Martin McDonagh
Roteiro: Martin McDonagh
Edição: Jon Gregory
Cinematografia: Ben Davis
Trilha Sonora: Carter Burwell
Elenco: Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, Peter Dinklage, Caleb Landry Jones, Kerry Condon, Abbie Cornish, Lucas Hedges, Zeljko Ivanek, Sandy Martin

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