CRÍTICA | Verdade ou Desafio

by Thiago de Mello

Gosto de começar minhas análises pelas cenas iniciais dos filmes que assisto. Os primeiros minutos costumam dizer muito sobre a trama, os personagens e a atmosfera almejada através de detalhes mais ou menos explícitos. É um exercício interessante, mas ele não cabe no terror/suspense adolescente Verdade ou Desafio. Nada contra a sequência de abertura, que é eficiente naquilo que propõe. Porém, o desfecho do filme consegue compilar tantos problemas em tão pouco tempo que acaba se destacando. Mas relaxe, não darei qualquer spoiler.

Após 1h40 de terror genérico, previsível e desinteressante, resta ao espectador saber apenas como os jovens sobreviventes escaparão da maldição do espírito assassino que os obriga a jogar uma mortífera versão de Verdade ou Desafio. Eis que a conclusão abraça uma convenção do gênero ao trazer uma peripécia que, na ânsia de surpreender, força ainda mais a suspensão da descrença, que já era demasiadamente exigida. O resultado é desastroso.

É difícil saber qual é a proposta de Verdade ou Desafio. A simplicidade da trama sugere que o destaque será a elaboração e criatividade das várias mortes dos personagens, algo como fizera James Wong no slasher Premonição (2000). Porém, como slasher adolescente, o filme falha absolutamente nessa elaboração, principalmente pela prioridade não ser o o visual, mas a classificação indicativa (14 anos). Não há violência gráfica, qualquer senso estético ou criatividade que dê valor às cenas. Mas se não bastasse as mortes insípidas, os personagens descartáveis que compõem o filme deixam tudo ainda mais desanimador.

Verdade ou Desafio

‘Verdade ou Desafio’ não choca, não diz nada e tampouco entretém

A falta de sutiliza ao elaborar cada membro do grupo de amigos amaldiçoado é prejudicial à experiência. Em pouco tempo em tela, os primeiros a morrer são facilmente revelados através de suas personalidades rudes, ofensivas e, bem, estúpidas. O machismo e a arrogância que definem alguns dos adolescentes é um anúncio de seus destinos. Isso é, porém, uma convenção do gênero que segue fiel à proposta. Sempre haverá personagens descartáveis cujo objetivo é criar as regras e elaborar senso de perigo do filme. Mas o que acontece quando nenhum personagem é minimamente elaborado e, por consequência, relacionável?

O trio protagonista composto por Olivia (Lucy Hale), Lucas (Tyler Posey) e Markie (Violett Beane) é involuntariamente cômico, principalmente graças ao complicado triangulo amoroso que caracteriza boa parte das ações de cada um. Essa situação é utilizada apenas para conveniências do roteiro que busca dar uma complexidade destoante aos personagens e ao filme. A variação dos interesses amorosos, principalmente de Olivia por Lucas, é descabida e irrelevante dentro do contexto da obra. As ações de cada não têm consequências reais e tudo permanece sempre do mesmo jeito, independentemente do que foi dito ou feito. E não ajuda em nada o trio principal ser composto por ator e atrizes tão fracos.

Esse envolvimento amoroso é, também, um dos vários momentos onde o filme claramente se leva a sério demais, mesmo com uma premissa tão adolescente. Há também um drama acerca da homossexualidade de um personagem que mesmo com um desfecho interessante não consegue atingir a carga dramática desejada. Mas isso não é culpa apenas do roteiro relaxado e de seus personagens descartáveis, mas da também da comicidade involuntária do espírito maligno.

A caracterização do espírito consegue algo surpreendente: eliminar o medo. Através de um sorriso contorcido e olhos avermelhados, tudo ainda mais exagerado na pós-produção, as feições dos possuídos são risíveis. A ideia era elaborar uma imagem trapaceira, sádica e cruel, mas o resultado é antagônico e chega a causar um embaraço jocoso. Mesmo sendo implacável em seus ataques, a presença não causa desconforto, mas risos.

Diante tudo isso, retorno ao final do filme. Os personagens descartáveis sobreviventes precisam tomar uma decisão. A decisão, vale mencionar, possui certa “ousadia”. Porém, essa “ousadia” é o ponto de ruptura da suspensão da descrença que já estava no limite. Parece que ao desejar uma franquia, Verdade ou Desafio prefere extrapolar a lógica e coerência com novas regras aleatória e sem justificativa. A dimensão do final é interessante na teoria, mas falha na prática.

Mas é preciso abordar também qual o significado da jornada da protagonista Olivia – e a do filme. Ao se levar a sério demais, é difícil imaginar que não haja alguma mensagem ou comentário por trás das consequências dos atos de Olivia. Inicialmente elaborada como uma pessoa boa, caridosa, sincera e pacífica, sua conclusão pode ser interpretada de duas maneiras, e nenhuma é boa. É possível que não haja mensagem qualquer, o que daria ao roteiro ainda mais problemas tendo em vista que a construção da personagem teria sido toda em vão. Mas também pode-se dizer que todo esse altruísmo de Olivia é simplesmente uma farsa motivada por… algo.  Há possíveis razões, mas nada que sustente as atitudes iniciais e finais da personagem. As ações de Olivia são conflitantes. Se em um momento ela preza pelo bem, em seguida não se importa com ninguém. Esse desenvolvimento tenta dizer o que? Que bons atos vêm da culpa? Que pessoas boas são falsas? Não há conclusões satisfatórias, tampouco coerentes.

Caso não se levasse tão a sério, Verdade ou Desafio poderia ser proveitoso, tal como acontece com o slasher A morte te dá parabéns. Também produzido pela Blumhouse, o filme também se ancora em premissa e personagens simples e superficiais. A diferença é que ele entende suas limitações e assume a galhofa inata desse tipo de premissa adolescente. Enquanto isso, Verdade ou Desafio adiciona dramas e romances fracos com personagens descartáveis e uma ameaça risível e sem estrutura. Como um filme onde um demônio joga verdade ou consequência pode ser levar tão a sério?!

 


 

 

Data de estreia: 3 de maio
Título original:
 Truth or Dare
Gênero: Terror, Suspense, Slasher
Duração: 1h40
Classificação: 14 anos
País: EUA
Direção: Jeff Wadlow
Roteiro: Jillian Jacobs, Michael Reisz, Christopher Roach, Jeff Wadlow
Edição: Sean Albertson
Cinematografia: Jacques Jouffret
Trilha Sonora: Matthew Margeson
Elenco: Lucy Hale, Tyler Posey, Violett Beane, Sophia Taylor Ali, Nolan Gerard Funk, Landon Liboiron, Sam Lerner

 

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