Vingança & Castigo é um faroeste que merece a tela do cinema

by Thiago de Mello

Conheci o gênero faroeste ainda criança, com meu avô: um apaixonado pelo bangue-bangue, como ele chamava. Apesar da familiaridade, esse não é o gênero que mais acompanho ou o que mais gosto. Entretanto, a assertiva feita até pouco tempo, já não pode mais ser falada com tanta certeza após Vingança & Castigo, um faroeste revisionista, que realmente existiu, com todos os protagonistas negros.

Num resumo muito curto, o revisionismo altera algumas das características mais comuns do gênero, no caso, o faroeste. Entre essas características, a imagem negativa dos nativos americanos, negros, mulheres, ou qualquer outra raça e gênero que não fosse o padrão homem-branco-heróico-de-moral-incorruptível.

Quando assisti pela primeira vez filmes como Meu Ódio Será Tua Herança (Sam Peckinpah, 1969) ou Os Imperdoáveis (Clint Eastwood, 1992), eu não tinha ideia de que eles eram, assim como Vingança & Castigo, um outro “tipo” de faroeste, conhecido como western revisionista. Era novo demais para assemelhar o padrão que esse subgênero propunha. E para ser mais atual, talvez, o exemplo mais recente e conhecido de um faroeste revisionista seja Django Livre, do adorado Quentin Tarantino, num western spaghetti cujo herói é o homem negro, e o vilão, o branco.

Um faroeste que tem tudo para agradar aos fãs do gênero, mas não se limita apenas isso

Em Django Livre as construções dos personagens feitas pela câmera, com seus ângulos baixos, closes e outras movimentações enfáticas e dinâmicas (bem aquilo que poderia se chamar de tarantinesca), se inspiram nas convenções clássicas do gênero, mas ganham um novo valor quando o foco é o revisionismo. Afinal, durante muitos anos, os nativos americanos foram retratados no faroeste não apenas como bandidos selvagens, mas como intrusos na sua própria terra. Ou seja, a perspectiva era a do colonizador. E – pelo menos para mim – isso significa que Django Livre, que passei a gostar bem mais ao longo do tempo, não é apenas divertido, mas necessário. Só que, ainda assim, é um filme sobre um personagem negro escrito e dirigido por um homem branco. Não à toa, há um inegável protagonismo branco na história, para o bem ou para o mau, que a faz caminhar.

Em Vingança & Castigo é diferente.

Dirigido por Jeymes Samuel, que também assina o roteiro ao lado de Boaz Yakin, Vingança & Castigo é um westent revisionista que deixa seu propósito bem claro logo no início ao anunciar que “embora os eventos deste filme sejam ficcionais… Essas. Pessoas. Existiram”.

A história do filme segue o tradicional padrão de vingança: o fora-da-lei Nat Love (Jonathan Majors) caçou e matou cada membro da gangue de Rufus Buck (Idris Elba), responsável por uma tragédia do seu passado. Com exceção do próprio e impiedoso Rufus, que está preso em Yuma. Mas quando Nat descobre que Buck deixará a cadeia, ele reúne seu bando e parte para completar sua vendeta.

Em Vingança & Castigo, a relevância dos personagens vai além da mecânica narrativa. Homens e mulheres negros e negras que quase foram esquecidos e são, boa parte das vezes, ignorados no faroeste, inegavelmente um gênero de importância cultural nos EUA. E o longa de Samuel reverte isso. O próprio elenco ajuda a evidenciar essa reversão, com uma escalação primorosa pela variedade de nomes famosos, como Jonathan Majors, Zazie Beetz, Regina King, LaKeith Stanfield, Delroy Lindo e Idris Elba e vários outros.

Cada personagem é interessante do seu próprio jeito. Regina King, por exemplo, está numa intensidade assustadora, tal qual Idris Elba. Ambos, porém, intimidam de formas bem diferentes. LaKeith Sanfield faz um personagem de aspecto ambíguo e misterioso. E há ainda Jonathan Majors, com um Nat Love “simples”, mas não menos intenso e relacionável. E já que estou falando de talento, a Cuffee, de Danielle Deadwyler, se destaca em meio a tantos nomes de peso com uma linguagem corporal que diz muito sobre a personagem de poucas palavras.

A miscelânea de personagens diferentes cria um microcosmo negro, que se mantém coeso pela realidade do hoje e de seus passados, marcados pelas consequências da escravidão, sejam elas diretas ou indiretas.

Castigo & Vingança busca reorganizar a relação de poder imbricado na escravidão e, consequentemente, no racismo. Para isso, além dos personagens, há todo o estilo da obra, que vai além do valor estético.

As convenções do gênero faroeste estão todas ali, das paisagens aos tiros, mas customizados pelo estilo de Samuel. Trata-se de um filme superestilizado, recheado de saturação, paletas de cores contrastantes, músicas anacrônicas, personagens de fala urbana, frames congelados e o perceptível sangue digitalizado (que foi uma das poucas coisas que me incomodaram). Embora tudo isso se combine numa jornada bonita e dinâmica, é mais interessante reparar como esses aspectos da forma redefinem a relação de poder dentro do filme. Principalmente quando aparecem os poucos personagens brancos da história.

E engraçado perceber como os brancos não possuem influência direta na história, não são eles quem a movimentam. E quando são “necessários”, o filme lida com isso de forma bastante irônica, tal como na sequência da cidade branca. Apesar de uma pequena redundância do letreiro, que repete justamente o que está em cena (quase como a explicação de uma piada óbvia), a tônica é cômica. Não só pelo uso da cor, mas pela facilidade com que tudo se desenrola.

Mais interessante da que a cidade branca, é sequência a anterior a ela: a do assalto ao trem, que também revela o vilão do filme. A estilização, nessa sequência, tem valor narrativo. Há deformação do ambiente pela presença do vilão, que sai de um escuro profundo – o que é uma metáfora visual bem explícita sobre quem é Rufus (apesar de toda nuance emocional muito bem composta por Elba).

Apesar de intimidador, Rufus Buck tem um aspecto melancólico e resignado, o que torna o vilão mais do que uma força destrutiva

A cena que revela o vilão é precedida por uma divisão de telas que coloca de um lado um Cherokke Bill, sereno, contra um soldado branco nervoso. A opção busca justamente demonstrar qual é a relação de poder racial dentro da obra. E fica claro que quem detém o poder são os protagonistas, os negros.

Toda essa construção fortalece o aspecto cinematográfico do filme enquanto forma narrativa. Não é um longa que busca o realismo cru tão comum do gênero, mas o espetáculo dele. Entretanto, não é apenas espetáculo, principalmente quanto ao clímax que, apesar da ação frenética e violência com doses de blackexplitaion, tem seu ápice justamente no emocional. As revelações finais, que unem as pontas restantes da história, são quase como tiros nos personagens, além dos próprios tiros. Um ótimo misto porrada, bomba e emoção.

Vingança & Castigo é um blockbuster – ou seria melhor blackbuster? – que deveria passar nos cinemas. Um faroeste moderno, intenso e divertido, cheio de ação e estilo. Das imagens às músicas, é difícil ficar impassível! Mesmo que você não queria focar no aspecto racial, o filme é, no mínimo, um ótimo exemplo de faroeste revisionista.

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