CRÍTICA | Projeto Gemini

by O Sete

Henry Brogan (Will Smith) é um assassino de elite que se torna o alvo de um agente misterioso que aparentemente pode prever todos os seus movimentos. Ele logo descobre que o homem que está tentando matá-lo é uma versão mais jovem, rápida e clonada de si mesmo.

A partir dessa premissa simples, o novo filme do premiado Ang Lee (O Segredo de Brokeback Mountain, As Aventuras de Pi) apresenta duas propostas distintas. A primeira delas é pautada pelo gênero de ação no qual Brogan precisa encarar, enfrentar e sobreviver a si mesmo. Para isso, o filme adota artifício tão comum nos últimos filmes do gênero, que é o rejuvenescimento digital de atores para elaborar uma nova dinâmica de ação. E a segunda proposta é a relação direta desse conflito entre futuro e passado. Ou seja, algo mais filosófico. Mas ainda que as intenções sejam boas e promissoras, Projeto Gemini falha em momentos importantes.

Apesar da união de um diretor conceituado e um ator tão conhecido e adorado, o que guiou a divulgação do filme foi a promessa de uma “nova” tecnologia: Projeto Gemini tem uma reprodução de 120 quadros por segundo (ou ‘fps’, do inglês frames per second), chamada de 3D+. A maioria das salas, no entanto, não consegue exibir essa taxa de frames, logo o filmeé exibido a 60 fps. Ainda assim, a tecnologia surge como uma novidade ao se juntar ao 3D em uma produção de grande orçamento. Mas ela, por si só, não é capaz de sustentar uma obra tão irregular.

No aspecto tecnológico, o filme consegue entregar um 3D que valoriza a profundidade de campo – afinal, é pra isso que serve essa nova dimensão – sem desorientar o espectador. Isso permite menos cortes e uma câmera mais estável que facilite a observação da dinâmica na tela. E embora haja bons momentos, a história entre eles carece de pulso e energia.

Projeto Gemini possui ambição, mas não consegue dar-lhe substância

O desempenho de Will Smith consegue criar alguma conexão com o espectador, mesmo em momentos nos quais o CGI das sua versão mais jovem (Junior, como é chamado) possui uma artificialidade perceptível. Ainda assim, o ator transmite carga dramática. Projeto Gemini pode não ser a melhor performance do ator, mas sua interpretação de duas versões do mesmo personagem é um mérito para sua carreira. Tanto Henry Brogan quanto Junior possuem camadas e histórias próprias: enquanto a versão mais madura é amargurada, soturna e inconformada com atitudes tomadas no decorrer de sua carreira, a outra apresenta certa inocência, confusão quanto a sua própria existência e função no mundo, ainda mais ao perceber que seu significado é ser tudo aquilo que o protagonista se arrepende de ter sido. Há um duelo filosófico dos personagens centrais que, mesmo pouco profundo, consegue transmitir valor.

Aliás, certos diálogos, principalmente entre Brogan e Junior, merecem uma atenção a mais, e principalmente uma sensibilidade para enxergar as entrelinhas. Há pinceladas de críticas ao modo violento como a segurança estadunidense funciona e como agentes eliminam certos alvos cujos crimes verdadeiros foram contrariar interesses. E também em como essas ações violentas impactam também aos agentes de segurança. Aliás, os interesses individualistas são a essência do antagonismo do filme, e apesar da falta de clareza e desenvolvimento quanto à intencionalidade, é possível aproximar certos momentos do longa e suas críticas incutidas aos discursos violentos, a uma política baseada no medo e no terror, feita por líderes da atualidade.

Mesmo assim, apesar dos efeitos visuais avançados e por vezes impressionantes, Projeto Gemini não consegue sustentar a empolgação do público por todo filme. O excesso de exposição e a repetição de informações (como a alergia do protagonista ao veneno de abelhas e o clone enviado para matá-lo) o tornam redundante e cansativo. Se há uma mensagem central, esta não está suficientemente clara ou desenvolvida. Qual o peso e quais impactos a clonagem pode trazer para além do cerne do protagonista?

Projeto Gemini é um filme que apesar de não ser um entretenimento de todo vazio, além da novidade tecnológica, está longe de ser memorável dentro do seu próprio gênero.


Data de estreia: 10 de outubro de 2019
Título Original: Gemini Man
Gênero: Ação, Ficção Científica, Drama
Duração: 1h57
Classificação: 14 anos
País: China, Estados Unidos
Direção: Ang Lee
Roteiro: David Benioff, Billy Ray, Darren Lemke
Cinematografia: Dion Beebe
Edição: Tim Squyres
Trilha Sonora: Lorne Balfe
Elenco: Will Smith, Mary Elizabeth Winstead, Clive Owen, Douglas Hodge, Theodora Miranne, Benedict Wong

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