CRÍTICA | Fleabag

by João Rafael

[COM SPOILERS MODERADOS DAS DUAS TEMPORADAS]

Será que é possível um espectador masculino aprender alguma coisa sobre o universo feminino assistindo a Fleabag? Me refiro a aprender mesmo, não apenas vislumbrar na superfície um modelo narrativo especificamente construído (muitas vezes por homens) para servir como um amálgama de características de cartilha que definiriam o que seria uma personagem feminina forte nos tempos atuais, como se a indústria estivesse piscando para o público em troca de que a reconheçam como moderna. A sensação que tive ao terminar as duas curtas temporadas dessa excepcional série escrita por Phoebe Waller-Bridge era de que sim, aparentemente eu havia sido surpreendido pela sagacidade e honestidade das desventuras urbanas e psicológicas de sua protagonista, mesmo aqui em minha inerente limitada visão do outro gênero, aquele que dominou boa parte do processo criativo durante praticamente toda a existência das narrativas audiovisuais.

Antes de mais nada, é preciso deixar claro: aprender aqui não é estar na pele. Não se pode simplesmente assumir que todos saibamos o que é ser mulher e todas as implicações disso, mesmo reconhecendo que o poder da empatia permite que os homens ao menos tentem compreender a jornada feminina sob seu olhar de fora. No momento em que Fleabag (Bridge) – é assim que vamos nos referir a ela, já que seu nome nunca é revelado – olha para a câmera e quebra a parede para nos revelar seus pensamentos antes de um encontro sexual, ganhamos um lugar na fileira da frente para presenciar os questionamentos que costumavam surgir em outras obras como uma piadinha – no caso específico, sobre sexo anal. O tom ainda é cômico (como se nota na pergunta que ela se faz acerca de suas dimensões íntimas), mas a abordagem é ousada no sentido de dizer o que não é muito dito normalmente, especialmente por causa da insistente estigmatização do desejo sexual feminino.

Não só porque é feito explicitamente, mas o inesperado efeito dessa abordagem ganha um aspecto ainda mais interessante para os homens. Em entrevista para o podcast The Guilty Feminist, a atriz/roteirista diz que a câmera foi se desenvolvendo como uma espécie de mecanismo de pressão e testemunha, e que sua relação com ela diz muito sobre a sensação de estar sedo julgada o tempo todo na sociedade por sua personalidade, escolhas, roupas, relacionamentos, etc; e mesmo que não necessariamente esse olhar a enxergue de forma inquisitiva, a personagem se sente como tal assim mesmo. Então, de fato, se tem algo com o qual o espectador masculino se identificará é justamente estar do lado de cá da câmera, de onde participou historicamente como um juiz parcial do sexo oposto.

Mas não simplifiquemos demais. A relação de Fleabag com esse olhar subjetivo é mais intrincada do que a nossa vontade de classificá-la confortavelmente de acordo com nossa expectativa. Ela é testemunha e confidente, mas não é necessariamente, digamos… alinhada. Ela está com ela o tempo todo e tem o privilégio de saber o que se passa naqueles momentos onde os homens só teriam seus palpites diante de suas expressões enigmáticas. Mas também a segue e sabe exatamente quando examinar minunciosamente seus mecanismos de defesa mais íntimos. É como se a pegasse no flagra quando, por exemplo, uma psicóloga – com a qual havia conseguido uma consulta como um presente dado por seu pai (Bill Paterson, excelente) – questiona quem são as pessoas com as quais ela se confidencia (no caso, o público), tendo como resposta uma sutil súplica de reconhecimento daqueles que a acompanham desde o 1º episódio.

Aliás, o ótimo texto de Phoebe Waller-Bridge constrói essa dinâmica da forma mais brutalmente honesta possível. Ganhamos acesso aos seus mais íntimos julgamentos acerca de sua atribulada vida sexual, que não é resumida “apenas” ao seu papel casual, mas à maneira como ela se torna perigosamente um refúgio atrelado a uma complexa sensação de culpa. Além de ser certeira no humor aguçado, a série muda de forma surpreendente para tons mais dramáticos. Na 1º temporada, sabemos que há algo de errado nas demonstrações contidas de angustia em relação às lembranças da amiga Boo (Jenny Rainsford), com quem abriu um café temático de porquinhos-da-índia. Nesse sentido, cabe reconhecer o excepcional trabalho do montador Gary Dollner, que concebe uma lógica de recortes fascinante ao colocar o público na mente da personagem enquanto traça um recorte do luto após a morte da amiga, que a deixou sozinha tomando conta de um negócio cada vez mais próximo da falência. Ágil e muitas vezes simbólica, a abordagem na montagem permite que experimentemos sua jornada psicológica através de flashes e lembranças de um passado recente, dando aos poucos as peças para que se compreenda a origem de seu martírio – e que, para ela mesma, tem um sentido de resgate e tentativa de redenção.

A mesma lógica se mantém também para seus vínculos familiares. Após a morte da mãe, Fleabag e sua irmã Claire (a ótima Sian Clifford) se veem em um distanciamento cada vez maior em relação ao pai, especialmente depois que ele assume um relacionamento com a dissimulada nova madrasta (Olivia Colman). Repleta de situações desconfortáveis e silêncios ensurdecedores – quebrados apenas pela língua afiada da protagonista –, as interações entre eles revelam uma incompatibilidade causada por personalidades distintas. Há um inegável afeto, mas parafraseando o pai, amar não é necessariamente gostar o tempo todo. É admirável notar como os conflitos entre eles jamais assumem uma só frente e nunca se preocupam em estabelecer valores absolutos.  

Dessa forma, por mais que as impressões que temos de Claire, o pai e a madrasta serem as de uma pessoa específica, a série nunca opta por um caminho que facilitaria os enxergar como antagonistas ou heróis de alguma maneira. É claro que Claire se mostra quase um oposto de sua irmã: reservada, bem-sucedida e em um casamento duradouro (que se mostra logo problemático), porém presa a uma ideia de conquista familiar – ter um bom emprego, se manter longe de confusão e projetar uma imagem de estabilidade. Seria fácil que Bridge se colocasse na trama como uma espécie de salvadora prestes a libertar a irmã do asqueroso marido, Martin (Brett Gelman), lhe abrindo os olhos através dos valores feministas que julga lhe faltarem, mas a coisa é mais complicada que isso.

‘Fleabag’ é uma comédia aparentemente simples, mas que atinge uma profundidade surpreendente ao tocar em diversos temas.

É onde entramos de fato na forma como a obra aborda esses valores. Novamente, sob a “restrição” de ser um homem, não me parece que sua criadora optou também por um caminho mais fácil. O arco principal está, sobretudo, fundamentado em uma construção primeiramente preocupada em retratar uma personagem complexa. Da mesma forma que ela demostra um carinho e uma determinação admirável com a irmã, por exemplo, também não faz questão de esconder seus arroubos egocêntricos e suas perversões morais. Afinal, o feminismo de Fleabag está muito mais em sua honestidade afiada, externalizada em suas aspirações e desejos, do que numa suposta representação ideal. Porque deveríamos supor que ser feminista é ser incorruptível às suas regras? Existem mesmo regras? Ao ouvi-la dizer “eu não posso nem me considerar uma feminista” ou até “eu as vezes me preocupo em pensar que eu não seria tão feminista se tivesse seios maiores”, o universo da série reconhece essas inseguranças não como uma fraqueza ou traição, mas como um sinal mais profundo do vazio que acomete sua protagonista.

Claro, jamais serei eu a me atrever a determinar se ela acerta ou não nisso. Na verdade, é bem possível que o espectador masculino se sinta incomodado lá no fundo, mesmo que não admita, pela narrativa da série. É como dito, estávamos do lado de cá durante muito tempo quando os desejos femininos eram encarados como tabu e, quando uma dessas personagens se arriscava a ser quem era de verdade, era retratada como se fosse descontrolada, sujeita a um escrutínio público muito mais severo. Não deveria surpreender ninguém que, aqui, ela recorra ao sexo como escape, julgue implacavelmente a aparência de um cara legal que acabou de conhecer e se porte de forma muito mais racional do que suas contrapartes masculinas. Se parece estranho que seu ex-namorado Harry (Hugh Skinner) seja excessivamente sentimental e o padre (Andrew Scott) encarne muito mais uma fantasia sexual hiper despojada do que uma pessoa real, experimente se lembrar como as mulheres foram retratadas milhares de vezes em comedias românticas voltadas ao público masculino.

Mesmo assim, reiterando a excelência do roteiro, é certo que qualquer um dos gêneros não tardará a se simpatizar com Fleabag. Luto, culpa e falta de sentido na vida são definitivamente sentimentos universais. Mais uma vez, quando se imagina que a série irá usar, por exemplo, a religião como uma crítica à maneira como julga a mulher, ela vai além. Mira num objetivo mais profundo e surpreendente, quando sua protagonista confessa para um padre:

Eu quero alguém para me dizer o que fazer, o que vestir toda manhã, o que comer, o que gostar, o que odiar, que banda gostar, o que pode ou não virar piada. Eu quero alguém que me diga em que acreditar, em quem votar, quem amar. Alguém que me diga como viver certo, porque eu só tenho errado. Alguém como você é para as pessoas, que as diga o que fazer e o que elas ganham no fim, mesmo que eu não acredite nessa bobagem e que cientificamente nada do que eu fizer fará diferença”.

Talvez eu deva refazer minha pergunta. Será possível um espectador refletir profundamente sobre diversos temas através de uma comédia aparentemente simples? Definitivamente, sim. Quanto ao universo feminino, ainda acredito que não cabe a mim decidir se estou ou não aprendendo sobre ele. Só posso dizer que, se depender de obras como Fleabag, será fascinante continuar tentando.


Data de estreia: as duas temporadas estão disponíveis na Amazon Prime Video (2016 – 2019)
Título Original: Fleabag
Gênero: Comédia
Duração: 2 temporadas com 6 episódios cada (aprox. 23 min por episódio)
Classificação: 16 anos
País: Reino Unido
Direção: Harry Bradbeer, Tim Kirkby
Roteiro: Phoebe Waller-Bridge
Cinematografia: Tony Miller, Laurie Rose
Edição: Gary Dollner, Paul Machliss
Trilha Sonora: Isobel Waller-Bridge
Elenco: Phoebe Waller-Bridge, Sian Clifford, Olivia Colman, Brett Gelman, Andrew Scott, Bill Paterson, Hugh Skinner, Jenny Rainsford

0 comment

Leia também

Esse site usa cookies para melhorar a sua experiência. OK